Você acha que está consciente sobre sua alimentação? Esta é uma pergunta muito ampla e talvez você sinta dificuldade de responder. Pode ser que ao ler esta pergunta, muitas outras surjam em sua mente; como: o que é estar consciente sobre minha alimentação? O que envolve a consciência alimentar?

A alimentação representa um universo de possibilidades e, segundo Humberto Maturana, é um ato vital, diário e complexo. Como assim? Para ajudar a responder a primeira pergunta deste texto, vamos utilizar uma parte do modelo da médica Michele May, trazendo vários outros questionamentos que poderão ajudar a olhar a alimentação de maneira ampliada e consciente. Por exemplo, você já se deu conta do porquê você come? Por que tem que comer para viver? Por que está na hora de sua refeição? Por que outra pessoas que estão juntas com você estão comendo? Por que há comida gostosa e grátis disponível? Por que seu corpo está pedindo?

O comer consciente (Mindful Eating)

Você sabe o que está comendo, de onde esse alimento vem, como é a cadeia produtiva, de distribuição? Consegue compreender as informações nutricionais contidas no rótulo dos alimentos industrializados ou há nomes de substâncias químicas, uma lista de ingredientes que você desconhece o que seja? Como você come? Está atento às suas escolhas, o que coloca no prato, aos pensamentos, sentimentos e sensações no corpo enquanto se alimenta? Come em pé, sentado, quase deitado no sofá ou em sua cama?

Talvez você até já esteja se sentindo angustiado com tantas perguntas e se tudo isso e muito mais envolve a consciência alimentar, provavelmente a resposta que esteja emergindo seja NÃO, não estou consciente e isso é perfeitamente natural. Em nosso mundo com tantos estímulos de toda a ordem, ansiogênico, capitalista, que hipervaloriza o fazer, o ter, sobra pouco espaço para sentir, perceber. É muito comum estarmos desatentos ao que fazemos enquanto acordados; um estudo da Universidade de Harvard aponta que aproximadamente 47% do tempo estamos desatentos e, a alimentação sendo parte de nossa vida, não fica fora disso.

mindful-eating o que éO que fazemos na hora da refeição? A resposta poderia ser óbvia, não? Eu como! Simples assim e ao mesmo tempo extremamente complexo. Por quê? Na hora do almoço estamos de fato nos dedicando a nos alimentar, nos nutrir, estando presentes em cada sensação de comer, a tudo que emerge na experiência de nos alimentarmos? Para a grande maioria não, estamos praticando o que vamos chamar de mindless eating, ou seja, comemos de forma desatenta, desconectada de nosso corpo, de nossos pensamentos (que são muitos), de nossos sentimentos e emoções e, neste processo de desconexão, executando múltiplas tarefas, com inúmeras pressões, com tempo escasso frente a tudo que gostaríamos de fazer. Comemos de forma mecânica, automática, muitas vezes até como mais uma tarefa, obrigação de nosso dia tão atribulado. Não raro, nosso comer é ansioso também, mal mastigamos, não descansamos o talher, já estamos no futuro, na próxima garfada, com pressa de ir para a próxima tarefa, nem sempre existente, ou necessária, mas o importante é não perder tempo, sempre na corrida, humanos buscando acompanhar as máquinas…

Em contraposição ao mindless eating surge uma nova abordagem o mindful eating, como um braço de mindfulness, assunto que você já teve oportunidade de ver em outro vídeo com a psicóloga e instrutora Viviam Vargas de Barros. Como um braço de mindfulness, mindful eating vem cultivar a possibilidade de nos reconectarmos com o lado humano, menos cartesiano do comer, com mais abertura, gentileza, curiosidade e com menos julgamentos a cada alimento que está disponível para nosso consumo.

Mindful eating nos dá a possibilidade de fazer escolhas, não apenas a partir das regras, informações científicas e nutricionais, que chamamos de sabedoria externa da Nutrição, mas também e principalmente, a partir da sabedoria interna, dos sinais que nosso corpo envia, para ser melhor cuidado, respeitado, apontando quando podemos começar a comer e quando seria momento de parar. Além disso, a percepção ampliada em como muitas vezes o alimento, ou uma refeição pode preencher, modificar nosso estado interno e não apenas trazer nutrientes, regular a glicose no sangue, trazer energia a partir de sua composição.

À semelhança de Mindfulness, Mindful Eating possui diferentes definições segundo os diversos autores de protocolos existentes e a essência destas definições você encontra acima; todavia, gosto de definir Mindful eating de uma forma ainda mais ampla, entendendo como forma de autocuidado, autoconhecimento, tendo no alimento a possibilidade de construir a saúde integral, uma forma de se relacionar com o corpo e alimentação de maneira mais prazerosa, pacífica e compassiva.

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Preciso então estar sozinha no momento da refeição para praticar mindful eating? Claro que não, alimentação é compartilha, tem sentido social, não visa o isolamento. Você pode estar só, mas estar engajado em conversas mentais, passado, futuro e ausente da refeição.

Nós sempre nos alimentamos, mas nunca estivemos tão perdidos como agora. Nos conectamos com o mundo todo, temos centenas, as vezes milhares de pessoas, “amigos”, nas redes sociais, mas nos distanciamos de nossa essência, de nós mesmos, de nosso corpo. Nesse processo de desconexão, o alimento que deveria promover saúde, qualidade de vida, vitalidade, está nos adoecendo… Cada vez uma imposição maior de restrições sob pena de adoecer graças a alimentos que vêm sendo modificados geneticamente, que estão carregados de pesticidas, corantes, aromatizantes, conservantes, confundindo e intoxicando nosso corpo. E, como se isso não bastasse, povoamos mente e coração de inúmeros e cruéis julgamentos para com o corpo, os alimentos e para conosco.

Na busca do corpo ideal, perseguindo fotos irreais, construídas em softwares de imagem, impõe-se ao corpo restrições alimentares severas do ponto de vista quantitativo e qualitativo e, por consequência, surge a compulsão. Muita culpa, auto sabotagem, autopunição emergem. A necessidade de reconhecimento, da perfeição, buscando a felicidade ao nos compararmos com o outro, permite que o sentimento de frustração, de insuficiência e baixa auto-estima se instalem.

O incentivo para parecer-se e não para ser, de evita o sofrimento, de fugir da experiência, de não entrar em contato, facilita, dentre outros, o comer transtornado, que é uma relação distorcida com o corpo e alimentação. Muitas vezes na tentativa de emagrecer ou manter o peso, a saúde do corpo pode ficar comprometida a partir do uso de diuréticos, laxantes, prática intensa de exercícios e/ou restrições alimentares severas sem orientação profissional.

Mindful eating não é uma nova dieta e, particularmente não gosto de conceituar como ferramenta, pois minimiza seu potencial, mas como abordagem, forma de estar, de se relacionar com o corpo, com o alimento, com a vida; levando não a um maior controle, como um fiscal que observa e espera o momento de fragilidade para punir, mas como forma de auto empoderamento, para assumir o comando, o poder de escolha, de forma consciente, respondendo em vez de simplesmente reagir.

O que quero dizer com isto? É muito fácil, na rotina do dia a dia, no automatismo e desconexão, reagirmos aos estímulos que chegam e, sem perceber, levar para o prato. Quantas vezes confundimos fome com sede? Um frio na barriga confundido com fome? Um vazio no peito, um desconforto emocional que termina com uma parada na cozinha e repetidas visitas à geladeira sem levar à saciedade?

Respondemos a diferentes fomes, que segundo a professora Jan Chozen Bays são 9, passando pelos nossos sentidos (tato, olfato, paladar, visão e audição), incluindo as emoções (fome do coração), a mente e o corpo (estomago e celular), normalmente sem perceber ao que estamos respondendo, simplesmente reagimos. O alimento é usado como recompensa, como forma de nos anestesiar para aquilo para o que não estamos preparados ou não nos permitimos acolher…

À medida que, a partir das práticas de mindfulness e mindful eating nos aproximamos mais do corpo, reconhecemos pensamentos, sentimentos e sensações corporais, temos mais chances de responder adequadamente às necessidades de nosso corpo; levar autocuidado. Como é possível atender ao que o corpo necessita se não notamos que ele precisa de algo e muito menos o quê?

A partir de práticas formais (quando reservamos um horário do dia para praticar os exercícios sugeridos) e informais (o que podemos incorporar no dia a dia), além de um pouco de psicoeducação, vamos, aos poucos, abrindo espaço para uma mudança de comportamento, de relação com nossa alimentação e corpo.

Que estando mais mindful no dia a dia, a cada momento de nos alimentarmos, possamos aprender um pouco mais sobre nós, refletido no ato de comer; que encararemos cada momento de refeição como oportunidade única de estar presente, reconhecer-se, cuidar-se, respeitar-se e cultivar saúde no corpo, na mente e no coração!

Acesse a nossa agenda e participe de um programa de Mindful Eating https://spmindfulness.com.br/agenda