Hoje em dia, a palavra mindfulness (atenção plena) tem sido muito utilizada em contextos, educacionais organizacionais, de saúde e em muitos outro como uma prática promissora para o desenvolvimento de bem-estar, saúde mental e relacionamentos interpessoais mais saudáveis. Mas, apesar de muito veiculada, será que as pessoas realmente sabem o que é mindfulness?

A começar pelo nome, muita gente não consegue nem pronunciar, pois não é uma palavra em português, então a tradução mais comumente utilizada é atenção plena. Mas, se temos uma palavra em português, por que as pessoas continuam utilizando este termo em inglês? O principal argumento é que o termo atenção plena não consegue traduzir adequadamente o real conceito de mindfulness, uma vez que não se trata somente de atenção, mas de muitas outras habilidades que constituem esse conceito. Vou começar com o conceito mais utilizado internacionalmente e tentar detalhar um pouquinho o que ele quer dizer.

“Mindfulness pode ser definido como uma habilidade metacognitiva universal de prestar atenção ao presente momento, de maneira intencional e sem julgamento”.

Ahn?????????????

Calma, parece complicado, mas no fundo é simples… Se olharmos para esse conceito, a primeira palavra é habilidade, ou seja, é algo que pode ser desenvolvido e treinado, é claro que algumas pessoas têm níveis maiores dessa habilidade que outras, mas com paciência e disciplina, todos nós podemos desenvolvê-la, assim como qualquer outra habilidade. Mais na frente nesse texto eu explico como podemos desenvolver mais essa habilidade.

A segunda palavra é metacognitiva. De maneira simples, metacognição quer dizer que temos consciência do que estamos sentindo, pensando ou fazendo, juntando com a habilidade então, é uma habilidade de reconhecer o que se passa em nossa mente.

A terceira palavra é universal, ou seja, todos nós temos. Então, olha que legal, você já tem mindfulness e nem sabia… rs. Brincadeiras à parte, quero dizer aqui que todo ser humano já tem essa habilidade de conhecer a sua própria mente, mais ou menos desenvolvida. Mas, não vamos ficar muito animados porque sem treino, vamos perdendo a destreza em qualquer habilidade que temos. Por exemplo, como tenho escrito à mão cada vez menos, percebo que minha letra vai piorando, à medida que escrevo com mais frequência, ela melhora de novo. Por isso, voltarei ao treino logo que terminar de explicar o conceito.

Continuando, o conceito diz que é uma habilidade de prestar atenção ao momento presente. Ou seja, não é qualquer habilidade que estamos treinando, mas uma habilidade atencional, especialmente direcionada ao que acontece no momento presente. É importante lembrar que é também uma habilidade metacognitiva, então o interessa da atenção está no que se passa em nosso próprio ambiente interno em cada momento, ou seja, em nossa mente (nossos pensamentos), nossos sentimentos e também as sensações corporais. Portanto, não estamos nem no passado nem no futuro, mas aqui mesmo, aqui agora. Como você está agora ao ler este texto, será que consegue reconhecer?

Aqui, chego finalmente no porquê o termo atenção plena não é tão completo quanto mindfulness. Observem no conceito acima que é prestar atenção ao momento presente, de maneira intencional e sem julgamento. Aqui, vou inverter a ordem e falar do não julgamento primeiro. Então, é uma atenção aberta, curiosa, desvinculada de nossas ideias prévias ou expectativas sobre as coisas. É uma atenção amorosa e profunda sobre o que ocorre nesse momento. Isso não quer dizer que não teremos discernimento sobre as coisas, pelo contrário, trata-se de nos abrirmos inteiramente à experiência do momento primeiro e, depois de vivê-lo, elaborar o que pensamos sobre ela, se for o caso. Isso é importante, porque muitas vezes ficamos presos em nossas ideias sobre as coisas, ao invés de experimentar.

Por exemplo, quantas vezes você deixou de comer algo na sua vida adulta, porque na infância não gostava? Hoje você é uma nova pessoa e seus gostos podem ter mudado, então, o quanto das nossas vidas não estamos perdendo, por ficarmos presos em nossas ideias sobre as coisas? Mindfulness trata-se de se abrir à vida e saboreá-la, sem julgamentos.

Finalmente chegamos ao último ponto do conceito, intencionalmente. A intenção em mindfulness é muito importante, primeiro, porque redirecionar a atenção para o momento presente, requer uma disciplina e intencionalidade, pois não é o habitual da nossa mente, estamos acostumados mesmo a nos perder nos devaneios e pensamentos. Além da intenção de voltar a atenção ao momento presente, a intencionalidade também se refere à intenção que temos com a prática de mindfulness. Ou seja, podemos refletir sobre porque é importante para nós nos engajarmos nessa prática e de acordo com isso, estabelecer ações concretas que nos ajudem a ir de acordo com as nossas intenções.

Então, apesar de parecer complexo, no final, podemos entender que mindfulness é uma habilidade, que podemos treinar, de nos tornarmos mais íntimos de nós mesmos, reconhecer o nosso corpo, nossos sentimentos, os pensamentos, padrões de funcionamento e à luz desse autoconhecimento, fazer escolhas mais conscientes em nossas vidas, escolhas mais alinhadas àquilo que realmente é importante para a gente. No fundo, é uma quebra de paradigmas antigos e uma abertura ao novo, que só está presente neste momento, neste agora.

Para fecharmos essa parte de conceito, um conceito de mindfulness bastante completo, de acordo com Jon Kabat-Zinn é:

“Uma consciência não julgadora, momento a momento, cultivada por prestar atenção de maneira específica, isto é, no momento presente, de forma não reativa, sem julgar e com o coração mais aberto quanto possível.”

É exatamente esta nova maneira de aproximação a nós mesmos que traz os tão famosos benefícios para nossa saúde mental. Normalmente, para desenvolvermos esta habilidade de mindfulness, seguimos um caminho que começa com o treino da nossa atenção. Este é o primeiro passo, então, treinando nossa mente para estar onde queremos que ela esteja, nos desprendendo intencionalmente e gentilmente dos devaneios, vai adestrando a nossa mente para ter uma atenção mais regulada, é o que chamamos de regulação atencional, aprendemos a desenvolver uma estabilidade da atenção.

Quando nossa atenção está um pouco mais estável, começamos a treinar entrar em contato e reconhecer os nossos pensamentos e emoções, como reagimos às coisas e os nossos padrões de funcionamento. Com isso, vamos nos tornando mais hábeis emocionalmente, pois ao invés de fugir das emoções negativas, aprendemos como elas se manifestam em nós mesmos e aprendemos a nos relacionar com elas. Da mesma maneira, desfrutamos mais das emoções positivas, pois sabemos, que todas elas, necessariamente vão passar em algum momento. Aqui está o segundo resultado benéfico para nossa saúde mental, uma regulação emocional. Ao aprendermos a observar nossos pensamentos e emoções, podemos assumir uma perspectiva de espectador destes eventos passageiros e não nos fundimos com os nossos pensamentos, é o que chamamos tecnicamente de desfusão cognitiva. Ou seja, temos maior flexibilidade psicológica, conseguindo ver as coisas de um ponto de vista mais ampliado que a nossa própria visão de mundo, além de reconhecer quando estamos ruminando sobre o passado ou antecipando as coisas do futuro, diminuindo os sintomas de depressão e ansiedade.

De acordo com um dos principais modelos teóricos de meditação, o treinamento inicia-se por um treino de atenção focada que envolve o desenvolvimento de pelo menos quatro habilidades: (1) atenção sustentada em um objeto alvo (âncora), (2) habilidade de monitoramento, para identificar quando a mente devaneia, (3) a habilidade de se desengajar do objeto de distração sem continuar envolvido nele (mudança de foco da atenção) e (4) a habilidade de redirecionar o foco prontamente ao objeto de escolha (atenção seletiva). Portanto, ao contrário do entendimento do senso comum, nem sempre a meditação é entendida como ficar com a mente vazia, ou manter a mente em um único foco atencional, mas sim, estar consciente de todo o processo enquanto ele ocorre, ou seja, a metacognição. Então, mindfulness é sim para quem se considera ansioso, ou inquieto demais e pensa que por esse motivo não consegue praticar. Praticamos, justamente porque precisamos aprender a nos relacionar com a ansiedade e não para não ficarmos ansiosos. Dessa maneira, acabamos ficando menos ansiosos, paradoxalmente.

Além desse treinos das habilidades de atenção, treinamos também a habilidade atitudinal durante a prática, ou seja, observamos o que se apresenta a cada momento com curiosidade e abertura, inclusive o fato da mente se distrair. Dessa maneira, tão importante quanto sustentar a atenção e monitorar a experiência, é a forma como nos tratamos quando notamos que nos distraímos. Em mindfulness, treinamos cultivar uma atitude benevolente e compassiva a nós mesmos, pois entendemos que nos distrair faz parte do funcionamento da mente humana.

Então, agora que já sabemos o que é, podemos falar um pouco sobre como treinar esta habilidade. A maneira mais eficaz, ou pelo menos a mais estudada sobre como treinar mindfulness, é por meio das práticas meditativas. Mas para quem tá começando, não é muito fácil fazer isso sozinho, você que está lendo esse texto, provavelmente já tentou… Sabendo dessa dificuldade, Jon Kabat-Zinn, um biólogo molecular da Universidade de Massachusetts, meditador de longa data, teve um grande insight e pensou em uma maneira de secularizar, tornar acessível a todas as pessoas, os conhecimentos e o caminho das pedras para aprendermos a cultivar mindfulness. Jon Kabat-Zinn trabalhava no hospital geral da Universidade de Massachusetts percebia que alguns pacientes crônicos, não conseguiam melhorar suas condições de saúde, independente da abordagem que usavam. Então ele decidiu criar um programa que ele chamou de Programa de Redução de Estresse Baseado em Mindfulness (Mindfulness-Based Stress Reduction – MBSR).

O MBSR é um programa com a duração de oito semanas, com um encontro semanal de aproximadamente 2h e 30 minutos que conta com práticas meditativas formais de mindfulness (Escaneamento corporal, meditação da respiração, meditação caminhando e em movimento), componentes psicoeducativos sobre a natureza da mente, a origem do sofrimento (aversão e avidez), aceitação, dentre outros temas e discussão em grupo sobre as experiências vividas no momento da prática e como elas podem nos ensinar sobre as nossas vidas.

A grande sacada de Kabat-Zinn, foi construir um método sistemático de ajudar as pessoas a perceberem como estavam levando suas vidas, a se aproximarem de suas dificuldades de maneira gentil e a entenderem como a prática de meditação mindfulness poderia contribuir para que vivessem uma vida com mais sentido e alegria, apesar de todas as dificuldades. Para quem quiser conhecer mais sobre a história e o programa desenvolvido por Kabat-Zinn, recomendo fortemente a leitura do livro “Viver a catástrofe total”, recentemente traduzido para o Brasil, pela querida Márcia Epstein.

Após a criação do MBSR, inúmeros outros programas de oito semanas de mindfulness foram surgindo, mantendo a estrutura criada por Kabat-Zinn e o foco nas práticas de mindfulness, mas com pequenas alterações nas conduções das práticas, nas psicoeducações e discussões, de acordo com os públicos específicos.

Alguns exemplos são os programas da Breathworks para dor crônica, o Terapia Cognitiva Baseada em Mindfulness (Mindfulness-Based Cognitive Therapy – MBCT) para prevenir recaídas em pacientes com depressão recorrente e o Prevenção de Recaídas Baseado em Mindfulness (Mindfulness-Based Relapse Prevention – MBRP), desenvolvido para transtornos aditivos, dependências e compulsões, e o Mindfulness-Based Eating Awareness Training – MB-EAT para transtornos alimentares e para o desenvolvimento de uma relação mais consciente com a alimentação (No Brasil o termo mais usado é Mindful Eating) e o Programa de Qualidade de Vida Baseado em Mindfulness.

Os programas de oito semanas de mindfulness foram desenvolvidos para serem oferecidos por facilitadores/instrutores devidamente treinados para grupos, para que possamos aprender com as experiências das outras pessoas, discutir e aprender a como lidar com os desafios da prática e incorporar as práticas de mindfulness na rotina diária. Assim, a cada semana, novas práticas vão sendo ensinadas, seguindo um aprendizado progressivo e são dadas orientações sobre como incorporar aquelas habilidades no dia-a-dia, para que ao final das oito semanas, os praticantes tenham as ferramentas necessárias para seguirem praticando por eles mesmos e, mais importante, capazes de incorporar os princípios de mindfulness em suas vidas diárias.

Espero que este artigo tenha te ajudado a entender um pouco mais sobre mindfulness. Se você gostou e ficou curioso, acompanhe as nossas lives gratuitas todas as quintas-feiras às 20h pelo Instagram e Facebook e visite o nosso site, quem sabe você não encontra um programa que se encaixe em suas necessidades?

Conheça o nosso Programa de Qualidade de Vida Baseado em Mindfulness:

O Programa de Qualidade de Vida Baseado em Mindfulness é inspirado no mundialmente reconhecido programa Mindfulness-based Stress Reduction (MBSR), da Universidade de Massachusetts no Estados Unidos, criado pelo pesquisador Jon Kabat-Zinn, entre outros protocolos como Mindfulness Based Cognitive Therapy (MBCT), Mindfulness Based Relapse Prevention (MBRP), Mindfulness Based Pain and Illness Management (MBPM).

Este programa é voltado para pessoas com:

– Pouca capacidade de atenção;
– Reatividade excessiva às situações do dia a dia;
– Níveis elevados de estresse ou burnout, no caso de profissionais;
– Sintomas de ansiedade e depressão;
– Dor crônica e outras enfermidades como hipertensão e diabetes.

Saiba mais >> https://spmindfulness.com.br/programa-de-qualidade-de-vida/