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Autoaceitação faz bem

Não que a autocrítica seja destrutiva em si, o excesso é que faz mal. “Quando exagerada, em vez de potencializar as capacidades do indivíduo, ela o limita”, explica a psicóloga Marcia Epstein, professora do Instituto Sedes Sapientiae, em São Paulo. Em contrapartida, a teoria de Henkels sugere a autoaceitação. E a ciência já comprovou, aliás, que isso surte mais efeito quando o assunto é crescimento pessoal. Uma pesquisa da Universidade Carnegie-Mellon, dos Estados Unidos, publicada este ano na revista científica Proceedings of the National Academy of Science, mostrou que um aplicativo de meditação que incentivou a aceitação como parte da prática reduziu o impacto do estresse nos que incentivou a aceitação como parte da prática reduziu o impacto do estresse nos participantes do estudo.

De acordo com o psicólogo Antonio Carlos Amador Pereira, professor da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo), as cobranças demasiadas são resultado de nossas interações com o meio nos diferentes círculos sociais: família, escola, trabalho… “Todos eles dialogam entre si, isto é, são influenciados uns pelos outros”, afirma. E o que em algumas culturas pode ser um problema, segundo o professor, em outras, é visto como qualidade. “Por aqui, é comum a gente se tocar ao cumprimentar as pessoas.

P – A autocrítica é necessária para o nosso crescimento pessoal? Por quê?
R – A palavra “crítica” vem do Grego κριτική (kritikí), que significa “a capacidade de fazer julgamentos”. A autocrítica refere-se à capacidade de avaliar os prós e contras das próprias crenças, pensamentos, ações, comportamentos ou resultados.
Entretanto há um problema na autocrítica, que é o seu uso excessivo. Nesse caso, em vez de potencializar as capacidades do indivíduo, acontece o contrário, a exagerada autocrítica o limita e prejudica.
Quando é usada como forma ou ferramenta de aprendizagem, pode ser muito útil e contribuir para o nosso crescimento pessoal e/ou profissional.

P – Quando ela ultrapassa os limites e passa a nos prejudicar, em vez de ajudar?
R – Sabe quando você ouve uma vozinha tagarelando em sua cabeça com um monte de julgamentos? “Você não é bom o suficiente”, “Você é preguiçoso”, ou até mesmo “Você é um idiota”. Há pessoas que utilizam a autocrítica de forma quase patológica, julgando-se e culpando-se por todas as coisas que acontecem, além de considerar imperdoáveis quase todas as atitudes e erros. Nesse caso, a autocrítica acaba funcionando como uma voz interior negativa, que culpa você por todas as ações que não deram certo.
Esse excesso de autojulgamento com que nos torturamos não nos protege contra erros, dor ou rejeição futuros. Na verdade, esse comportamento nos deixa esgotados e drenados, infelizes e com dúvidas acerca de nossas capacidades.

P – Por que é importante a gente se aceitar do jeito que é?
R -Aceitar-se significa simplesmente “ver as coisas como elas são” nesse momento e acolhe-las com gentileza. Também implica que as coisas e as pessoas não são fixas, estão em processo de mudança, e o que acontece com elas depende de causas e condições externas e internas. Então, eu diria “aceitar-se do jeito que a gente está” em vez de “do jeito que a gente é”, pois não somos seres fixos. Neste momento, a minha situação (comportamento, julgamento, entendimento) é assim. Quando você não aceita isso, pode querer reprimir, disfarçar, distrair-se desse fato de mil maneiras, e isso só retarda a mudança que, no fundo, você mesmo deseja. Mas essa mudança vem a partir do autoconhecimento e autoaceitação.

P – Mas aceitar não quer dizer se acomodar, certo?
R – Aceitar-se não significa resignação ou acomodação. Nesse caso, distingo entre a autocrítica construtiva (como uma ferramenta de autoconhecimento e crescimento) e a autocrítica excessiva e patológica (como padrão de comportamento). A pesquisa em Psicologia mostra que a autocrítica é uma característica central de múltiplos transtornos de humor e ansiedade, e pode persistir mesmo após tratamento, e constituir um fator de vulnerabilidade para recaída.
Já a autocrítica construtiva requer flexibilidade de mente, porque pressupõe que uma pessoa é capaz de questionar seu próprio comportamento e pensamento, em vez de acreditar que ele “naturalmente” é como é, ou que “nunca pode estar errado”. Estamos ativamente e humildemente procurando reconhecer e aceitar objeções contra nosso próprio comportamento, dispostos a aceitar que podemos estar errados, mas com uma atitude interna de gentileza e uma vontade de crescer e melhorar, o que é muito saudável.

P – O entendimento do que está certo e do que está errado com a gente é influenciado pelo ambiente e pelas pessoas que nos cercam?
R – Desde a infância, algumas pessoas são cobradas para atingirem resultados ótimos e perfeitos, devido, principalmente, a um ambiente familiar ou social muito exigente. Na verdade, a relação familiar é uma das que mais contribui para a formação de pessoas com autocrítica excessiva. Pais perfeccionistas, que a todo o momento apontam as falhas dos filhos, seja com críticas ou falta de reconhecimento de seu potencial, sem mostrar às crianças que estão sendo criticadas devido a determinado comportamento (e não por serem quem são), podem criar grandes estragos na personalidade infantil. A criança acaba introjetando essa atitude excessivamente crítica em relação a si mesma à medida que cresce.

P – Qual a relação entre compaixão e mindfulness? Como ambos podem nos ajudar nesse contexto?
R – Mindfulness ou atenção plena, segundo Jon Kabat-Zinn*, significa prestar atenção de um jeito particular: de propósito, no momento presente e sem julgamento. Implica também uma qualidade de gentileza e bondade. Ou seja, mindfulness não é só prestar atenção ao que está acontecendo, mas é também ter compaixão e, adotar uma atitude de não julgamento consigo mesmo e suas experiências.
No contexto do presente artigo, o oposto de ser autocrítico é praticar a autocompaixão. Segundo a pesquisadora de autocompaixão Kristin Neff, as pessoas que são compassivas consigo mesmas são muito mais propensas a serem resilientes, felizes e otimistas em relação ao futuro. Em seu livro**, Neff escreveu: “Ser autocompassivo significa que, quer você vença ou perca, supere suas expectativas altíssimas ou fracasse, ainda assim você acolhe a si mesmo(a) com a mesma gentileza e simpatia como faria em relação a um bom amigo.”

A autora nos desafia:

“Que tal nos sentirmos bem com nós mesmos, sem a necessidade de sermos melhores do que os outros, evitando o narcisismo/autocrítica excessiva?

A autocompaixão implica gentileza em relação a nós mesmos, quando a vida dá errado ou notamos algo sobre nós que não gostamos, em vez de sermos frios ou severamente autocríticos. Implica o reconhecimento de que a condição humana é imperfeita; assim, nos sentimos conectados aos outros quando falhamos ou sofremos, em vez de nos sentirmos separados ou isolados.”
Mas o que a autocompaixão realmente significa? De acordo com Kristin Neff, cultivar a autocompaixão envolve três áreas:

– Autogentileza: cuidar e compreender a nós mesmos na dor e no sofrimento.
– Mindfulness: adotar uma abordagem equilibrada em relação aos nossos sentimentos, sem tentar reprimi-los, ignorá-los ou negá-los.
– Uma percepção de humanidade comum: reconhecer que cometer erros, sentir dor e sofrer fazem parte da experiência humana.

Essas três áreas podem ser desenvolvidas e aprimoradas com a prática e ao longo do tempo.

*Viver a Catástrofe Total, Jon Kabat-Zinn, Editora Palas Athena, SP
** Self-Compassion: Stop Beating Yourself Up and Leave Insecurity Behind, Kristin Neff

Autora: Marcia Epstein
Psicóloga, tradutora, mestre em Linguística e Semiótica (USP), multiplicadora de Práticas Meditativas (Associação Palas Athena). Instrutora de Mindfulness. Coordenadora e docente do Curso de Expansão Mindfulness e Compaixão (Instituto Sedes Sapientiae). Atua com grupos de meditação e saúde desde 2007 na região de Campinas e São Paulo.

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