Programas

Antes de um Instrutor, um praticante…

Embodiment (incorporação) como base para o desenvolvimento das habilidades de um facilitador de mindfulness

Víviam Vargas de Barros
Professora do Centro Paulista de Mindfulness

“Mestre não é quem sempre ensina,
mas quem de repente aprende”
Guimarães Rosa

 

Como descrever o sabor de uma maçã de maneira que a descrição reflita exatamente a experiência de comê-la? Ou, como descrever a felicidade, ou o amor?

Estas são coisas, que assim como mindfulness, precisam ser vivenciadas para serem compreendidas, além disso, muitas vezes esta compreensão não passa por um entendimento racional ou é plausível de ser explicada. Por este motivo, não foi simples escrever este texto, de modo que ele de fato representasse a importância do embodiment, ou de outras habilidades relacionais fundamentais para o desenvolvimento de um facilitador.

A palavra facilitador será especificamente utilizada neste trecho, deliberadamente, com a intenção de criar uma atmosfera de que o instrutor (termo mais utilizado no Brasil) dos programas de mindfulness deve partir de um princípio de que toda a sabedoria já está presente em cada um dos participantes do seu grupo e, portanto, seu papel é de facilitar com que os eles tenham acesso à sua própria sabedoria.

O trabalho de facilitação das IBM envolve sim uma parte técnica importante, mas cuja boa execução também será desenvolvida e sustentada à medida que o facilitador invista em sua prática pessoal e vivencie este trabalho como uma oportunidade de auto-observação (self-inquiry) e de incorporação das atitudes tão bem descritas por Jon-Kabat-Zinn (2017), como atitudes que embasam as práticas de mindfulness. De maneira extremamente resumida e adaptada da descrição original, seguem abaixo exemplos da incorporação destas atitudes ao facilitar IBM*.

  1. Não-Julgamento: Estar consciente da tendência natural de julgar, reagir às experiências e falas do grupo e aprender a criar perspectiva e a não se engajar. Um exemplo claro disso é aprender a deixar o nosso ego de fora e reconhecer que experiências relatadas como agradáveis ou desagradáveis, são apenas experiências que devem ser exploradas e que não têm nenhuma relação com o facilitador (Ex. perante algumas experiências podemos nos sentir bem ou mal, ou tão neutros, que não damos atenção às experiência; então tendemos a julgar  as pessoas ou as experiências assim também, quando o que devemos fazer, é simplesmente trazer curiosidade a todas elas). Não se trata de parar de julgar, mas de ter consciência de que sua mente está fazendo isso e escolher dar um passo atrás.
  2. Paciência: Aceitar que as coisas e as pessoas vão se desenvolver em seu próprio tempo. Não é necessário, portanto, que o facilitador fique ansioso caso os participantes ainda não tenham conseguido incorporar uma prática diária ou que não estejam trazendo curiosidade e abertura às suas próprias experiências, ou que não tenham entendido talvez, na primeira prática o porquê dela no programa. É importante que o facilitador se reconecte com o seu próprio processo de praticante para entender que assim como ele pode se permitir ser um aprendiz de lento aprendizado, deve permitir também que os participantes de seus grupos o sejam. Como diz Kabat-Zinn, acelerar o processo de saída de uma borboleta do seu casulo, ainda que com uma boa intenção, pode prejudicar o seu desenvolvimento natural. A borboleta só pode sair no seu próprio tempo. O facilitador se permite e permite aos participantes a terem suas experiências, pois elas já estão ocorrendo de qualquer forma.
  3. Mente de Principiante: Receber todas as experiências e falas dos participantes com genuíno interesse, sem estar rigidamente apegado a uma “agenda”. No inquiry especificamente, ter uma mente de principiante permite ao facilitador ouvir e de fato partir da experiência dos participantes para fazer as perguntas, e não da sua própria mente pensante e planejadora da próxima pergunta. Seria de fato assumir o “modo ser” enquanto interage com os participantes no inquiry. “Uma mente de principiante nos permite estar abertos a novas possibilidades e nos previne de ficar presos na rotina de nossa própria expertise, que normalmente acha que sabe mais do que realmente sabe.” Assim, observe se está recebendo as experiências e as falas como elas realmente são, ou se as está interpretando de acordo com as suas próprias “molduras” ou reflexões sobre o que está sendo expressado.
  4. Confiança: Desenvolver confiança em si mesmo e nos seus sentimentos e intuições durante as conduções do grupo. A agenda, a programação e os modelos dos professores servem para guiar o facilitador, não para engessar. Se permita ser criativo dentro das intenções das práticas, agindo de acordo com a sua percepção da necessidade do grupo naquele momento. Da mesma maneira, confiar que cada um dos participantes tem a sua própria sabedoria permite com que eles também confiem nisso e se mantenham interessados em sua experiência, respeitando seus próprios limites. Se o facilitador sempre dá todas as respostas, não incentivando que os participantes mesmo se investiguem, ele pode favorecer a desconfiança dos participantes em sua própria sabedoria e corre mais o risco de que seus participantes não respeitem seus próprios limites, trazendo mais peso para si mesmo como facilitador.
  5. Não-esforço: Apesar de as IBM terem nomes que direcionam a algum benefício, como “Redução de Estresse Baseado em Mindfulness” ou “Qualidade de Vida Baseada em Mindfulness” a verdadeira natureza dos programas não está interessada em atingir a um objetivo rígido, mas sim favorecer com que as pessoas simplesmente se percebam e sejam o que elas são. A ironia disso, como nos diz Kabat-Zinn, é que elas já são. Esse é um dos principais motivos de darmos tanta importância ao fato do facilitador acolher a todas as experiências e explorá-las, sem distinção de interesse, como um modelo ao participante, para fazer o mesmo. Se nos prendemos a um objetivo, perdemos a chance de aprendermos com a real riqueza das experiências, que é muito maior que um único objetivo. Poderíamos inclusive arriscar a dizer que este é um dos principais problemas nas pesquisas com Mindfulness, pois nunca serão capazes de medir adequadamente a real dimensão na mudança, se se ativerem a objetivos e métodos rígidos. Da mesma forma, mais do que se ater rigidamente às “formas” das práticas e tempos durante a sessão, o facilitador deve se ater às “intenções” de cada momento da sessão, pois se ele se ativer à forma, sempre poderá ser diferente ou melhor, o que pode passar uma ideia de que o que foi feito não foi bom. mas, se independente da forma, a intenção foi contemplada, não há espaço para dúvidas, julgamentos ou questionamentos. Nesse contexto, “a melhor maneira de atingir os seus objetivos é abrir mão de se esforçar por resultados e começar a focar em gentilmente ver e aceitar as coisas como são, a cada momento.” Assim, o movimento em direção aos seus objetivos, acontecerá naturalmente, por si mesmo.
  6. Aceitação: Aceitar significa ver as coisas como elas são no presente momento. Facilitar uma IBM é estar verdadeiramente aberto a aceitar o que surge a cada momento no grupo. Quando nos esforçamos demasiadamente ou não acolhemos o que surge no grupo porque não estão de acordo com o que estamos treinando no momento, estamos forçando a situação para ser do jeito que gostaríamos que ela fosse, dessa forma, perdemos nossa energia para de fato favorecer a mudança e o crescimento. Por exemplo, se um participante traz muitos conteúdos mentais em sua partilha e o facilitador se irrita com isso, está perdendo a chance de redirecionar a conversa por meio do inquiry que favoreceria um entendimento de que o que foi trazido foi válido para entendermos a diferença entre conteúdo e processo. Às vezes nos engajamos tanto no que gostaríamos que ocorresse no grupo, que perdemos a consciência do que de fato está acontecendo. Não estamos dizendo aqui que o facilitador deve concordar com tudo e ser passivo, mas apenas reforçamos a ideia de aceitar que o que ocorreu é a experiência do momento e que é a partir dela que ele deve decidir qual o seu próximo passo. não há como decidir antes, senão estaremos presos em nossos próprios pensamentos. Agir dessa maneira em um grupo, significa abraçar a vulnerabilidade da incerteza do presente momento, o que, por sua vez, nos aproxima ainda mais dos participantes, pois estamos todos aprendendo a cada momento. O facilitador tem muito mais chance de saber o que fazer, quando tem uma visão clara da situação do momento, do que quando sua mente está turva pelos seus desejos, medos e pensamentos. O ponto mais interessante de se cultivar a aceitação, é saber que o que quer que estejamos vivenciando neste momento, irá mudar, nos dando chance de praticar a aceitação a cada momento.
  7. Deixar ir: Um processo muito familiar a todos nós é o fato de tentar atingir ou reter boas experiências e tentar evitar ou repelir experiências desagradáveis. Isso também ocorre no processo de facilitação dos grupos das IBM. Queremos que as práticas e oS inquiries “deem certo” e nos incomodamos ou não exploramos com a mesma curiosidade as experiências relatadas como desagradáveis ou associadas a emoções de tristeza, raiva ou medo. “Na prática de mindfulness, nós intencionalmente deixamos de lado a tendência de valorizar alguns aspectos da experiência e rejeitar outros”. Ao invés disso, apenas observamos esta tendência, bem como as experiências com curiosidade, permitimos sua existência e deixamos que ela siga seu curso. A cada momento, uma nova experiência surge, portanto, não é necessário se prender a nenhuma delas.  Ficar preso na forma como interpreta as experiências dos participantes, pode levar ao facilitador a ter dúvidas sobre a sua própria capacidade, ou mesmo a pensar que o que ocorreu foi sua responsabilidade. Lembramos então, que podemos deixar o nosso ego fora disso e apenas deixar com que estes pensamentos se vão. E tudo bem se for difícil deixar ir, se isso ocorrer, você pode trazer sua atenção para observar com curiosidade esta dificuldade. Ao observar atentamente sua tendência de se apegar, o facilitador também aprenderá sobre as consequências de se manter apegado e eventualmente ao deixar ir, também aprenderá como se sente ao se apegar ou deixar ir, de qualquer maneira, existe o aprendizado.
  8. Gratidão: Se inclinar a facilitar um grupo de uma IBM com uma atitude de gratidão, pela oportunidade de trabalhar com uma intervenção em que o facilitador ganha/aprende, se não mais que os participantes, pelo menos o equivalente. Normalmente não damos muita atenção a isso, pois este processo tende a se tornar uma rotina já que faz parte do trabalho diário do facilitador. Mas intencionalmente cultivar gratidão pelas trocas oferecidas pelos participantes e por esta possibilidade, altera substancialmente a qualidade relacional entre todos os envolvidos no grupo.
  9. Generosidade: Oferecer a sua presença para que as outras pessoas possam se beneficiar deste processo do grupo. Não para que o facilitador possa se rotular como uma pessoa generosa, mas sim, de fato abrir mão deste lugar e fazer o possível para facilitar o processo do outro. Por mais paradoxal que possa parecer, quanto mais se doar e se importar genuinamente com as pessoas do grupo, mais interconexão é estabelecida e mais poderoso será o processo de aprendizagem de todos os envolvidos.

Um ponto importante sobre estas atitudes é que cada uma delas é a porta para as demais, todas elas estão interconectadas, então podemos começar a qualquer momento, o mais importante é a intenção de cultivá-las.

*Por ser um texto adaptado da descrição das atitudes para o contexto de facilitação, as frases em aspas foram traduzidas livremente do livro “Viver a Catástrofe Total”, sendo de autoria de Jon Kabat-Zinn.

©Este texto faz parte do Manual de Instrutores da Formação Profissional em Mindfulness do Centro Paulista de Mindfulness e está protegido por direitos de autoria. Para reprodução total ou parcial desse material é necessária autorização prévia e formal do centro Paulista de Mindfulness e seus autores.

A próxima turma  da nossa formação se inicia 23/10/18. Para conhecer mais sobre a nossa formação, visite nosso site:

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Mais sobre esse tema:

Crane, R. et al. Manual of the Mindfulness-based Interventions Teaching Assessment Criteria (MBI:TAC). Bangor; 2016. (Desenvolvido inicialmente em 2012).

Crane, R. et al. What defines Mindfulness-based programs? The warp and the weft. Psychological Medicine; 2016.

Kabat-Zinn J. Viver a catástrofe total: como utilizar a sabedoria do corpo e da mente para enfrentar o estresse, a dor e a doença. São Paulo: Palas Athena; 2017. (primeira versão em inglês data de 1994).

Shonin, E. & Van Gordon, W. Practical recommendations for teaching mindfulness effectively. Mindfulness. 2014. DOI 10.1007/s12671-014-0342-y

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